Há exatos seis meses, durante uma de suas habituais reflexões sem roteiro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disparou uma frase que ecoou no debate sanitário e político: a injeção emagrecedora não poderia virar um “presente para gente relaxada”.
A tese presidencial, à época, era quase espartana — o remédio só devia ser receitado se a pessoa parasse de comer “um quilo de torresmo”, tirasse “a bunda da cadeira” e fosse caminhar. O Estado, subentendia-se, não deveria financiar milagres estéticos para quem não quisesse fazer a sua parte.
Corte para esta quinta-feira, 17 de setembro, a escassos 17 dias de o eleitor ir às urnas no primeiro turno de 4 de outubro.
Em visita a uma fábrica farmacêutica em Minas Gerais — um dos palcos mais cobiçados e decisivos da disputa —, o tom sobre a “canetinha” mudou radicalmente de cor. O tom reprimensor deu lugar à promessa generosa: o medicamento será distribuído gratuitamente pelo SUS para pessoas com obesidade. O discurso até manteve o apelo para que o cidadão “pare de encher o bucho de hambúrguer” e vá “comprar pão a pé”, mas a manchete que o Planalto fez questão de produzir foi outra — a da gratuidade estatizada do tratamento.
A guinada discursiva de Lula não ocorre em um vácuo pedagógico sobre medicina preventiva; ocorre no calor da urgência eleitoral.
Com as pesquisas indicando um cenário de empate técnico no segundo turno contra a oposição e com o eleitorado demonstrando sensibilidade a temas de custo de vida e acesso à saúde, a gestão federal acionou o modo aceleração de entregas. Não por acaso, a promessa da “caneta mágica” veio no mesmo dia em que o governo anunciou um reajuste de 15% nas parcelas do Bolsa Família, um afago financeiro direto que custará R$ 5,8 bilhões só até o final do ano.
Injetar uma promessa como a gratuidade das canetas de semaglutida no SUS a duas semanas da eleição atende perfeitamente ao manual do marketing eleitoral contemporâneo: pega um tema em alta no apelo popular, envelopa como conquista social e transfere para a oposição o ônus de parecer “contra o remédio do povo”.
É evidente e indiscutível que a obesidade é uma doença crônica grave e que o acesso a análogos de GLP-1 (cujas patentes começaram a expirar no Brasil este ano) pode representar um ganho real de saúde pública e economia em internações no futuro. O problema não é a discussão científica ou a eventual incorporação responsável da tecnologia pelo SUS — algo que exige protocolos rígidos e planejamento orçamentário que o próprio governo admite ainda estar tateando em estudos-piloto.
O problema é o contorcionismo do discurso público e a instrumentalização da esperança do paciente.
Quando o vento das pesquisas não era de tempestade, o remédio era “mimo para preguiçoso”. Quando as urnas se aproximam e o eleitorado exige novidades, a mesma medicação é elevada à condição de direito iminente distribuído no palanque. Lula ironizou no próprio discurso que “daqui a pouco vai ter candidato jogando caneta para o povo”. Ao lançar a promessa sem apresentar cronograma de implementação, orçamento detalhado ou prazos concretos, o presidente acabou fazendo, do alto do seu terno, algo muito parecido com o que criticou no seu opositor hipotético.
Resta saber se o eleitor absorverá a mudança de tom de Lula como um avanço na proteção social ou apenas como mais uma dose do já conhecido pragmatismo de véspera de eleição.

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