Da engenharia de Emílio Carlos Jourdan ao valor da WEG: uma herança de conhecimento, trabalho e inovação

TCC de Pedro Jourdan, descendente do engenheiro belga que ajudou a fundar Jaraguá do Sul, avalia o valor econômico da WEG e reconecta duas gerações da família à história industrial da cidade

O ano de 2026 oferece a Jaraguá do Sul uma oportunidade singular de olhar para os seus 150 anos não apenas como uma celebração cronológica, mas como um exercício de reconhecimento das ideias, pessoas e famílias que ajudaram a construir sua trajetória.

Nesse percurso, a memória de Emílio Carlos Jourdan, engenheiro belga que chegou ao Vale do Itapocu em 1876, estabelece uma das primeiras conexões entre conhecimento técnico, iniciativa empreendedora e transformação territorial.

Jourdan não chegou a um território pronto. A documentação histórica registra sua atuação na demarcação das terras, na organização de trabalhadores e na implantação de atividades produtivas, como engenho, serraria e olaria. A presença de um engenheiro na origem do processo de ocupação permite compreender Jaraguá como um território também marcado, desde o século 19, pela ideia de que conhecimento, técnica e capacidade de realização poderiam produzir desenvolvimento.

Cento e cinquenta anos depois, outra geração da família Jourdan estabelece uma relação simbólica com essa herança. Pedro Fragelli de Oliveira Mollica Jourdan, descendente de Emílio Carlos Jourdan, concluiu em 2025 sua formação superior em Economia e produziu o Trabalho de Conclusão de Curso “WEG: Valuation e Estudo de Caso”. Sua escolha não reproduz a profissão do antepassado, mas atualiza uma dimensão essencial daquela herança: compreender a realidade, estudar suas estruturas e transformar conhecimento em instrumento para interpretar o desenvolvimento.

Emílio Jourdan e a Bélgica da engenharia e do progresso

A origem belga de Emílio Carlos Jourdan acrescenta uma dimensão internacional à memória de Jaraguá do Sul. A Bélgica do século 19 esteve entre os grandes espaços europeus de industrialização. Fontes oficiais do governo belga registram que, sob os primeiros reis da Bélgica independente, o país tornou-se a segunda potência industrial. O Ministério das Relações Exteriores belga destaca ainda que, entre 1880 e 1914, o país foi o primeiro da Europa continental a atravessar a Revolução Industrial, com forte dinamismo econômico, comercial, ferroviário e tecnológico.

Nesse contexto, a engenharia não pode ser compreendida apenas como profissão. Ela representava uma forma de pensar o território, calcular possibilidades, dominar técnicas, organizar recursos e projetar soluções. A historiografia sobre a formação dos engenheiros no século 19 também destaca a existência, na Bélgica, de uma tradição de engenharia civil vinculada à formação técnica e à ação do Estado.

É nesse ponto que a memória familiar ganha força interpretativa. Não se trata de afirmar que a WEG seja uma continuação direta da obra de Jourdan, nem que exista uma linha empresarial entre 1876 e 1961. A conexão está em outro lugar: na valorização da técnica, da capacidade de realização, da formação e da busca permanente por soluções.

Da visão pioneira à cultura industrial de Jaraguá

A história de Jaraguá do Sul mostra que a vocação produtiva do território foi construída por diferentes gerações, grupos sociais, trabalhadores e empreendedores. Emílio Jourdan representa uma das primeiras experiências de organização produtiva; décadas depois, a cidade consolidaria uma economia industrial sofisticada.

É nesse ambiente que, em setembro de 1961, surge a WEG, fundada por Werner Ricardo Voigt, Eggon João da Silva e Geraldo Werninghaus. O estudo de Pedro mostra como uma pequena fabricante de motores elétricos se transformou gradualmente em uma multinacional de equipamentos eletroeletrônicos.

Mais do que os números, o elemento mais significativo dessa trajetória está na cultura empresarial identificada pelo próprio TCC: investimentos constantes em tecnologia, verticalização produtiva e foco na engenharia aplicada.

A WEG, portanto, pode ser interpretada como expressão de uma Jaraguá que transformou conhecimento técnico em capacidade industrial. Sua expansão para motores, automação, transformadores, inversores, energia solar, tintas e outras soluções revela uma cultura de diversificação e inovação. O trabalho de Pedro identifica quatro grandes segmentos e mostra a crescente internacionalização da companhia, com 58% da receita nos primeiros semestres de 2025 provenientes do mercado externo e presença comercial em mais de 135 países.

Pedro Jourdan: quando a herança se transforma em conhecimento

O TCC de Pedro pode ser relido como um documento de memória familiar. Sua formação não está na engenharia, como a de Emílio Carlos Jourdan, mas na Economia. A mudança de campo profissional, no entanto, não significa ruptura — pode representar uma atualização da mesma disposição intelectual: observar, compreender, calcular, projetar e avaliar o futuro.

O trabalho não se limita a descrever a WEG. Pedro procura medir seu valor econômico utilizando o Fluxo de Caixa Descontado, a Avaliação Relativa por Múltiplos e a análise de Valor Econômico Adicionado (EVA) — uma leitura contemporânea da empresa, na qual engenharia e economia se encontram para compreender aquilo que sustenta o valor de uma organização.

Essa escolha ganha dimensão afetiva diante da trajetória de Emílio. O antepassado usou sua formação de engenheiro para intervir sobre um território ainda em processo de ocupação. O descendente usa sua formação econômica para interpretar uma das maiores empresas surgidas nesse mesmo território. Entre um e outro existe um século e meio de transformações — mas permanece uma ideia: o conhecimento como ferramenta de construção do futuro.

WEG: o ativo de uma marca construída pelo conhecimento

A releitura de Pedro também amplia o significado da palavra “ativo”. Em uma perspectiva estritamente financeira, o TCC estima o valor econômico da WEG: no cenário-base, chegou ao valor justo de R$ 52,72 por ação pelo método de Fluxo de Caixa Descontado e R$ 53,40 pela avaliação relativa, embora o próprio estudo ressalte a sensibilidade dos resultados às premissas utilizadas.

Mas o maior ativo da WEG não pode ser reduzido a uma cifra. Ele também está na marca construída ao longo de décadas, na cultura empresarial, na engenharia, na capacidade de inovação, na formação de pessoas, na disciplina de capital e na capacidade de competir internacionalmente.

O TCC mostra que a companhia combina crescimento, eficiência, investimentos e geração de caixa. Entre 2017 e 2024, a receita líquida passou de R$ 9,524 bilhões para R$ 37,987 bilhões, enquanto a margem Ebitda evoluiu de 15,4% para 22,4%. Mais importante ainda, a empresa preservou capacidade de investir e financiar grande parte de sua expansão com recursos próprios.

Assim, a marca WEG pode ser entendida como um patrimônio empresarial construído sobre conhecimento acumulado.

Uma ponte entre 1876, 1961 e 2026

Aos 150 anos de Jaraguá do Sul, a história de Emílio Carlos Jourdan e o TCC de Pedro Jourdan permitem construir uma narrativa que atravessa gerações. Emílio representa o engenheiro que, no século 19, trouxe consigo uma formação associada à tradição técnica de uma Bélgica que se destacava pela industrialização e pelo progresso científico e tecnológico. Pedro representa a nova geração que, em 2025, concluiu sua formação superior e aplicou ferramentas contemporâneas da Economia para compreender o valor de uma empresa nascida em Jaraguá.

Entre eles está a história de uma cidade que deixou de ser uma fronteira de ocupação para se tornar um dos principais polos industriais do Brasil. A aproximação afetiva entre os dois Jourdan pode, portanto, ser compreendida como uma herança intelectual, não como repetição profissional. Emílio legou à memória familiar a imagem do engenheiro que projetava, organizava e realizava. Pedro atualiza essa disposição por meio da análise econômica, buscando compreender como uma empresa transforma tecnologia, trabalho, capital e conhecimento em valor.

Essa narrativa permite olhar para o sesquicentenário de Jaraguá do Sul não somente pelo passado, mas pelo futuro. A cidade que nasceu da iniciativa de um engenheiro belga encontrou, quase um século depois, na WEG, uma das expressões mais fortes de sua vocação industrial. E uma nova geração da família Jourdan, ao estudar academicamente o valor dessa empresa, estabelece uma ponte simbólica entre memória, educação, engenharia, economia e inovação.

Pesquisa realizada pelo Historiador Ademir Pfiffer, Fontes: Mollica Jourdan, Pedro Fragelli de Oliveira. “WEG: Valuation e Estudo de Caso” (Monografia de Final de Curso, Departamento de Economia, PUC-Rio, 2025); informações institucionais da WEG S.A.; Câmara de Vereadores de Jaraguá do Sul; IBGE (Jaraguá do Sul – Monografia nº 007, 1983); Belgium.be e Federal Public Service Foreign Affairs (Bélgica).

Quer receber as notícias mais importantes do dia, plantões de última hora e novidades da nossa região direto no seu celular? Clique aqui e entre no grupo de WhatsApp da Nossa FM

Para conferir mais reportagens, entrevistas exclusivas e tudo o que rola na nossa programação musical, continue navegando no Nossa FM e fique sempre bem informado.

Baixe nosso app clicando >>>> NOSSA FM

Veja também

Nossa Região