Há um detalhe que separa a farra dos jatinhos da FAB nos dois últimos governos: a transparência. Enquanto os gastos de Jair Bolsonaro com viagens presidenciais e ministeriais em 2022 — ano em que ele buscava a reeleição — foram detalhados após pedido feito pela Lei de Acesso à Informação, os dados equivalentes do governo Lula permanecem trancados a sete chaves. Sabe-se apenas o número de voos. O valor gasto, não.
E os números de voos, por si só, já chamam atenção. Em 2022, os ministérios de Bolsonaro somaram 766 voos em aeronaves da FAB. Em período semelhante do atual governo, os ministros de Lula fizeram 703 — uma diferença pequena, que reforça que a prática de usar a frota presidencial em ano eleitoral não é exclusividade de um lado do espectro político.
Quem mais voou no governo Bolsonaro
Na gestão anterior, os ministérios militares lideraram o ranking, com 112 voos. Na sequência apareceram a Saúde, com 75 voos, e a Infraestrutura — então comandada por Tarcísio de Freitas, hoje governador de São Paulo —, com 72. A pasta da Justiça e Segurança Pública somou 57 voos, e o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, sob Damares Alves, hoje senadora, registrou 46. No outro extremo, o Meio Ambiente fez apenas 11 voos, e a Cidadania, só um.
Os números que só existem para um lado
É aqui que a comparação esbarra no muro do sigilo. Considerando todo o mandato de Bolsonaro, o ano de maior gasto foi justamente 2022: R$ 45,76 milhões. Deste total, chama atenção o padrão de uso da máquina pública em eventos com forte apelo eleitoral — inaugurações, visitas a obras e lançamentos de pedra fundamental, sempre com grande público, e viagens a cerimônias militares e evangélicas, que somaram R$ 3,5 milhões em três anos junto à base política mais fiel do ex-presidente.
As sete viagens mais caras do período — todas para Guarujá (SP) e São Francisco do Sul (SC), destinos de descanso do então presidente — custaram juntas R$ 7,57 milhões, sendo quase metade paga com cartão corporativo. Somando todas as passagens a esses dois destinos ao longo do mandato, o total chega a R$ 11,2 milhões.
Do governo Lula, nada disso é possível reconstituir. Não há acesso aos valores gastos com veículos, cartões corporativos, diárias ou passagens da comitiva. O que existe é apenas a contagem de voos — e mesmo essa informação, incompleta, já é suficiente para mostrar que a lógica de usar a estrutura do Estado em ano eleitoral atravessa governos de todos os matizes.
O ponto que fica
A discussão não deveria ser sobre qual governo gastou “mais” ou “menos” — até porque essa conta, hoje, é impossível de fechar. O ponto central é outro: um presidente prestou contas porque foi obrigado pela Lei de Acesso à Informação; o outro optou por não abrir os números, mesmo diante de pedidos semelhantes. Em ano eleitoral, transparência não deveria ser exceção — deveria ser regra, para qualquer lado.
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