Um relatório sigiloso da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) classificou como “crítica” a ameaça de interferência dos Estados Unidos no processo eleitoral brasileiro de 2026.
O documento foi encaminhado à Presidência da República, ao TSE e ao Ministério da Justiça no final de agosto, segundo informação divulgada pela colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo.
De acordo com o relatório, ainda que não haja uma ruptura no padrão histórico de influência americana sobre o país, os EUA intensificaram de forma seletiva a pressão sobre o Brasil nos últimos meses. A Abin associa esse movimento à prioridade dada pelo segundo governo Trump à manutenção da hegemonia americana na América Latina, com o objetivo de reduzir o espaço de potências rivais — como a China — no acesso a recursos estratégicos e riquezas naturais da região.
O órgão de inteligência avalia que o Brasil se tornou alvo específico dessas pressões por ser, entre os países latino-americanos, o que reúne maior capacidade política de resistir a exigências de realinhamento geopolítico vindas de Washington.
Sanções e efeitos econômicos
O relatório destaca como ponto de inflexão o anúncio, em julho, de sanções dos EUA contra dois brasileiros e empresas ligadas a supostas redes de lavagem de dinheiro associadas ao PCC. Para a Abin, esse episódio marcou uma mudança de fase, ao atingir diretamente pessoas físicas e jurídicas brasileiras — com potencial de afetar relações financeiras, acesso ao dólar, reputação empresarial e operações internacionais de empresas do país.
O documento descreve um padrão de atuação que combinaria o enquadramento de organizações criminosas brasileiras como ameaça à segurança dos EUA, a construção de uma narrativa sobre sua atuação internacional e, na sequência, a adoção de sanções específicas — com risco de efeitos indiretos sobre bancos, fintechs e cadeias produtivas do país.
Papel de Marco Rubio
O secretário de Estado americano, Marco Rubio, aparece como figura central na análise da Abin. Segundo o relatório, Rubio teria atribuído ao presidente Lula a responsabilidade pelas tarifas impostas a produtos brasileiros, sob a alegação de que o país não teria negociado de forma adequada — uma leitura que, para a agência, deu um tom pessoal ao embate e ganhou repercussão entre veículos de comunicação e setores econômicos e políticos no Brasil.
A Abin também cita declarações de Rubio ao Senado americano, em junho, nas quais ele teria descrito a América Latina como uma região majoritariamente alinhada aos EUA, com exceções como Brasil, Cuba, Nicarágua e Venezuela — e a então gestão de Gustavo Petro na Colômbia.

Tentativa de ingerência eleitoral
O texto ainda recupera uma tentativa do governo Trump, em outubro do ano passado, de incluir em uma declaração conjunta bilateral um compromisso do Brasil de garantir a participação de “dissidentes políticos” nas eleições — proposta revelada à época pelo jornal O Estado de S. Paulo.
Em entrevista à rádio Itatiaia na última quinta-feira (17), o presidente Lula classificou esse documento americano como “arquivo morto” para seu governo e afirmou ser inaceitável que os EUA busquem prioridade sobre riquezas minerais brasileiras.
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