Há eleições que se perdem para um adversário combativo, para uma máquina governamental avassaladora ou por desvantagens financeiras intransponíveis. E há aquelas que se perdem para o espelho. Fabrício Oliveira conseguiu a segunda modalidade — a mais rara, indigesta e pedagogicamente cruel da política.
Ao disputar uma vaga na Câmara dos Deputados praticamente sem concorrência no campo da oposição em Balneário Camboriú, o ex-prefeito tinha diante de si o cenário que qualquer estrategista pediria aos céus: raia livre, visibilidade de ex-gestor e um eleitorado cativo. No entanto, o resultado das urnas foi implacável. Fabrício saiu do pleito menor do que entrou — nas palavras precisas do jornalista político Prisco Paraíso —, retornando à mesma suplência de onde havia saído há doze anos.
O cenário perfeito que se dissipou
A arquitetura política da eleição municipal parecia desenhada para favorecê-lo. A prefeita Juliana Pavan cumpriu rigorosamente os acordos firmados em 2024 para erguer sua ampla aliança governista e pulverizou o apoio da gestão entre seis nomes (Julio Garcia, Paulinha, Cristiano da Proteção Animal, Pezenti, Ismael dos Santos e Daniel Freitas).
Enquanto a base aliada se dividia em múltiplos quinhões, Fabrício reinava absoluto no campo oposicionista. Tinha a “Beverly Hills brasileira” inteira à sua disposição.
Contudo, os números contaram uma história bem diferente: 20.998 votos na cidade. Um desempenho numericamente inferior ao que alcançou em 2014, com o agravante de que hoje Balneário Camboriú conta com um eleitorado 25% maior. Encolher em casa enquanto o colégio eleitoral cresce não é um mero tropeço; é um sinal claro de desconexão.
A engenharia do republicanos e a disputa interna
Parte da explicação reside na montagem da nominata do Republicanos. Sob a batuta de Jorge Goetten — amigo próximo do governador Jorginho Mello e experiente articulador —, o partido escalou um time diversificado e focado em nichos regionais e temáticos consolidados:
Candidato Perfil e Base Eleitoral
Geovania de Sá Forte penetração e serviços prestados na região Sul (Criciúma).
Paulo Alceu Notoriedade midiática e apelo direto com o eleitor conservador.
Jorge Goetten Força partidária, projeto de reeleição e articulação estadual.
Darci de Matos Denso histórico político no maior colégio eleitoral do estado (Joinville).
Vera Pinheiro Representatividade e votos na Grande Florianópolis.
Sargento Garbila Conexão com o segmento da segurança pública e pautas de ordem.
Diante de nomes com identidades tão bem delimitadas, Fabrício Oliveira tentou ser tudo ao mesmo tempo.
O excesso de papéis e a ausência de uma causa
A campanha do ex-prefeito apostou em uma hiperpresença: frequentou púlpitos evangélicos, promoveu-se ostensivamente nas redes sociais e tentou encarnar múltiplas personas — o gestor moderado, o líder religioso, o pai de família, o missionário e o militante.
Nessa busca por abraçar todos os públicos, acabou não fixando uma marca clara em nenhum. Em uma eleição pragmática, em que cada concorrente oferecia uma bandeira bem definida ao eleitor, a candidatura de Fabrício pareceu vagar sem uma causa estruturante.
As lições do pleito
A votação inexpressiva no próprio reduto deixa lições para o futuro político da região:
- Redes sociais não substituem substância: A promoção digital ostensiva atrai cliques, mas não garante votos sem uma mensagem central coesa.
- O risco da autossuficiência: Acreditar que a memória recente da prefeitura seria suficiente para garantir preferência gerou um perigoso salto alto.
- Identidade é destino: Quem tenta falar com todos ao mesmo tempo corre o risco de não ser ouvido por ninguém.
Quando o cenário é amplo, a oposição está desimpedida e o resultado mesmo assim frustra as expectativas, a política não deixa margem para terceirizar culpas. A resposta para o fracasso de Fabrício Oliveira não estava nos adversários — estava refletida no espelho.

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